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Opinião: Será que o Brasil está anestesiado?

O Brasil é um país singular por natureza e história – um país continental com várias culturas, climas, peculiaridades em uma mesma nação. Tem um processo de construção histórica marcado pela imposição, muitas vezes à base da violência, de ideias e dogmas de uma classe sobre a outra.

Na historiografia tradicional que marcou as salas de aulas de minha época, os fatos da construção do Brasil foram transmitidos descrevendo um povo passivo diante da classe dominante. Isso não foi realmente o que ocorreu: os brasileiros sempre lutaram por melhores condições de vida e contra a imposição de uma ideologia ou política que favorecesse a uma minoria em detrimento da maioria.

Passando todos esses séculos, chegamos no ano de 2018 com a eleição de Jair Messias Bolsonaro – como de praxe na nossa recente democracia, mais uma vez os brasileiros se mobilizaram através de partidos, movimentos ou em pequenos grupos defendendo suas posições e uma mudança do viés ideológico predominante e da política econômica posta.




Contudo, os brasileiros, após o início do mandato de Jair Bolsonaro presenciaram sucessivas crises internas de um governo desconexo que cria inimigos, muitas vezes imaginários, acompanhados de interpretações e alegorias que mesclam o besteirol com o terror.

O que por muito tempo chocou, revoltou e gerou mobilizações, como o #EleNão, começou a ser normalizado e hoje ouvimos corriqueiramente frases como “ele sempre foi assim”, “ele só faz o que sempre disse que ia fazer”.

É clara a estratégia de Jair Bolsonaro de criar uma engenharia do caos, onde o enfrentamento às demais instituições democráticas como o Congresso e o STF são sua principal bandeira. Diálogo não existe em seu vocabulário.

Nesse contexto, os brasileiros vão se acostumando e até incorporando esse comportamento de hostilidade – seja verbal, seja na expressão ou na falta de empatia e humanidade – como normal para um presidente da República.

Essa semana o ministro Celso de Mello liberou o vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril, que o ex-ministro Sérgio Moro afirma ser uma das provas de que houve tentativa de interferência na Polícia Federal.

Eu assisti e é o assunto mais comentado em todas as rodas de conversa – lembrando que estamos no meio de uma crise histórica de saúde, onde já nos deixaram cerca de 22 mil irmãos brasileiros. Infelizmente, o que deveria ser a prioridade de todos ficou em segundo plano – inclusive do presidente da República.

O que mais me chocou foi que em 2 horas de reunião, cujo objetivo era discutir as ações ministeriais frente aos impactos diversos da pandemia, não se falou em infectados, mortos, testes, leitos. Muito menos se discutiu como diminuir a fome, a pobreza ou o desemprego.

Enquanto o presidente que em rede nacional já disse “e daí?” para esta “gripezinha”, na reunião com seus ministros focou em “vocês precisam me defender” e “eu tenho que proteger minha família e meus amigos”. Já os ministros e a ministra, mandaram “colocar os vagabundos do STF na cadeia”; “passar a boiada, mudar o regimento e simplificar normas” e “prender prefeitos e governadores”.

Afinal de contas, quem vai defender os brasileiros desse vírus mortal? O que acontecerá com os milhares de estudantes sem aulas, com os pequenos e médios empresários sem apoio financeiro para se reerguer, com as milhares de pessoas que de repente ficaram sem renda para sobreviver?

A população brasileira já presenciou tanto absurdos proferidos pelo presidente, está tão perdida com tanta falta de informação real, assustada com a falta de uma coordenação diante de uma crise de saúde, que o vídeo que em outros tempos seria justificativa para renúncia do presidente ou mesmo uma instalação de um pedido de impeachment é abordado como peça chave para a sua reeleição.

Será que a maioria da população brasileira concorda com a forma de condução e depoimentos daquela reunião? Será que a população brasileira crê que reuniões daquele tipo vão resolver os problemas da nação?




Em outros tempos, não muito distantes, um vazamento com um pequeno diálogo foi capaz de derrubar uma presidente do Brasil – não entro no mérito aqui se estava certo ou errado o vazamento – vimos, na última sexta-feira, algo com uma maior magnitude que está sendo relativizado e que a população está incorporando como natural. Não é e nem deve ser.

Estamos falando de uma nação de 210 milhões de brasileiros. É necessário decoro, respeito às instituições e aos demais governantes eleitos democraticamente. É preciso obedecer a lei e à Constituição. Ninguém, por maior que seja o cargo na hierarquia constitucional, está acima da lei ou mesmo pode achar que é a Lei. As falas do presidente da República e de alguns de seus ministros não foram nada republicanas.

Torço para que o efeito dessa anestesia, ou estado de choque, passe rápido e que os brasileiros novamente lutem contra qualquer forma opressora e autoritária e defendam os princípios democráticos conquistados com muita luta e sangue!

Por: Uilliam Pinheiro – Graduado em Ciências Econômicas e ativista social.

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